O Amor quer não morreu nem morrerá
Doris,Minas-Seu drama é o da memória.Você vive escravizada a uma lembrança.Amou,com todo o fervor,todo o desespero de sua alma,um rapaz sensível,nobre e delicado.Há seis anos,este rapaz morreu sensível,nobre e delicado.Há seis anos, este rapaz morreu em um desastre de aviação.Você se despediu dele no aeroporto.Seria uma ausência de dois ou três dias, uma ausência que,afinal de contas,tinha uma conseqüência útil para o seu amor,pois faria com que você meditasse,trabalhasse,aprofundasse a sua saudade e a sua ternura.Ele entrou no avião e você experimentou um brusco e intolerável presságio.Quatro horas depois,o rádio transmitia a notícia de que um avião se despedaçara de encontro a uma montanha.Era o avião do seu noivo.A partir deste momento,você se vestiu de luto e jamais o abandonou.Nem se pintou mais,e tornou-se, talvez,mais bela na sua palidez e no olhar enxuto e intenso de quem esbanjou,com uma única dor,todas as lágrimas.Parentes,amigos e conhecidos,impressionados com o seu martírio,tentaram,por todos os meios,liberta-la da saudade.Primeiramente,quiseram acabar com o seu luto.Você porém,foi irredutível.Seus vestidos pretos eram uma homenagem trivial e linda.Com o tempo,outros homens apareceram na sua vida,alguns bem interessantes,bonitos,ricos e finos.Você,com intransigente doçura,rejeitou um por um,em uma fidelidade desesperada ao bem-amado morto.Completados os dois anos do desastre-você me escreve uma longa carta,na qual passa em revisão os seus sentimentos.Pergunta,então,se a sua atitude me parece normal.Não ,normal não é.O normal é o inverso:a pessoa perde a criatura amada,e trata de substituí-la,tão depressa quanto possível.Dá-se,então,a catástrofe.Porque um amor,se é realmente amor,não tem substituição possível.
Mas nós,ainda assim,fazemos a tentativa para constatar,quase em seguida,o nosso total fracasso.E tarde,tarde demais,chegamos á
conclusão de que a criatura amada era insubstituível.Por tanto,você não está sendo normal,o que me parece uma felicidade,e não pequena,para você.
Você pergunta,ainda se é possível amar-se, eternamente,um morto.Ao contrário do que muitos pensam,acho que sim.Tenho uma amiga,cujo namorado rompeu com ela,não sei por que partiu, e partiu, definitivamente,para o estrangeiro.Se não me engano,para o Cairo ou Alexandria.Só sei que já se passaram quinze anos,quinze anos sem uma carta,uma frase,uma notícia,um retrato.Pois bem,minha amiga ainda o ama, com o mesmo desespero.Bonita, inteligente,amorosa como é, podia ter namorados uns quinhentos homens durante este período.Mas não.Conserva-se fiel a quem não pediu,não exigiu,nem quer a sua fidelidade.Eu quero dizer, com este exemplo,o seguinte: se é possível amar-se um ausente, por que não se poderá amar um morto?Que diferença faz um homem que se ausentou,definitivamente,para um que morreu.Alguém dirá que o vivo pode voltar,e o morto não.Raciocínio inteiramente falso.Não importa que o ausente possa voltar e o morto não.Se importasse,é que haveria,no amor,um sentido prático.Esse sentido não existe,porém.Tanto que não queremos amar,amamos a quem só nos faz sofrer,amamos a quem não nos ama.Em uma palavra:amamos por que...amamos.Pouco influi que um homem esteja presente,ausente ou morto.Influi,sim,este fato: ele é,ou foi, o único,entre tantos,que revelou conosco uma série de secretas e vitais afinidades.Ausentou-se ou morreu;mas nenhum outro consegue preencher o claro aberto em nossa vida.Que fazer?Aceitar qualquer um,ou o melhorzinho dos partidos existentes,ou esperar que apareça outro que possa substituir integralmente o bem amado.Esperar,mesmo em vão,parece-me ser a atitude mais inteligente.É, pelo menos ,uma maneira de evitar uma catástrofe sentimental.Entre substituir mal,e não substituir, a melhor solução será sempre a última.O mundo conhece centenas de amores que não se realizaram e ainda assim foram imortais.É possível,assim,um amor que se aprofunde na solidão,um amor que se baste a si mesmo,que se nutra da própria
força.O seu poderia ser assim.Digamos que seu caso é anormal.Anormal,mas lindo.E me permita,Doris que eu lhe conte
uma história um pouco triste,eu sei e ainda assim doce e inesquecível história.Foi em uma província italiana qualquer sob o céu mais lírico do mundo.Dois namorados morreram quase ao mesmo tempo e foram enterrados em dois túmulos separados por um caminho.Mas cada,noite,uma roseira brava alongava,de um túmulo para o outro,uma haste em flor.Foi preciso,então,reunir os dois túmulos.E, vendo aquelas sepulturas transformadas em uma só,o caminhante tinha o sentimento da eternidade do amor.
Nelson Rodrigues
*Retirado do livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo.
* Quem é Myrna ?
“Myrna é asiática?Myrna é européia?Myrna é americana Cigana?Pele –vermelha?Será uma flor?Loura,morena,baixa,alta ou magra?”